Rezum: o tratamento a vapor para a próstata sem remédio contínuo nem cirurgia pesada
Para muitos homens, o dilema da próstata aumentada é escolher entre tomar remédio pelo resto da vida ou enfrentar uma cirurgia que assusta. O Rezum surgiu para ocupar exatamente esse espaço no meio do caminho.
Dr. Rafael Grunewald · Urologista · CRM 201112 | RQE 124579 · 18 de junho de 2026
Neste artigo
Se você tem mais de 50 anos e convive com jato fraco, vontade frequente de urinar, urgência ou aquela rotina de levantar várias vezes durante a noite para ir ao banheiro, provavelmente já ouviu as duas opções de sempre. De um lado, o remédio de uso contínuo, que controla os sintomas mas precisa ser tomado todos os dias, possivelmente por décadas, com efeitos colaterais que incomodam muitos homens. Do outro, a cirurgia tradicional, eficaz mas que envolve internação, anestesia mais pesada e um período de recuperação que assusta.
O Rezum nasceu para ocupar o espaço entre essas duas escolhas. É um procedimento minimamente invasivo, feito em ambiente ambulatorial, que trata a próstata aumentada usando algo surpreendentemente simples: vapor de água. Neste texto explico o que é, para quem funciona, como é feito e, com a honestidade que uso no consultório, o que realmente esperar da recuperação.
O que é o Rezum
O Rezum é uma técnica que utiliza vapor de água para tratar a hiperplasia prostática benigna, o crescimento natural da próstata que acontece com o envelhecimento. A ideia por trás dele é engenhosa. Durante o procedimento, pequenas quantidades de vapor a 103 graus são injetadas diretamente no tecido prostático que está obstruindo a passagem da urina. Esse vapor eleva a temperatura local a cerca de 72 graus, o que provoca a morte controlada das células daquela região específica.
Nas semanas seguintes, o próprio corpo reabsorve esse tecido tratado de forma natural. A próstata diminui de volume nas áreas que comprimiam a uretra, e o canal por onde a urina passa se abre novamente. Não há corte, não há remoção mecânica de tecido durante o procedimento. É o organismo que faz o trabalho de eliminar o excesso ao longo do tempo.
Em uma frase
O Rezum usa o calor do vapor para reduzir a próstata por dentro, e deixa que o corpo elimine naturalmente o tecido tratado ao longo de alguns meses.
Para quem serve (e para quem não serve)
O Rezum é indicado principalmente para homens com sintomas urinários de leve a moderado, causados por próstatas de tamanho entre 30 e 80 gramas. Dentro desse grupo, ele costuma ser uma escolha especialmente interessante para alguns perfis específicos.
O candidato ideal costuma ser o homem que deseja manter a função ejaculatória preservada, que quer um procedimento rápido e de recuperação ágil, ou que tem condições de saúde que tornam uma cirurgia maior mais arriscada. Também é uma excelente opção para quem simplesmente não quer mais depender de medicação contínua ou não tolera bem os efeitos colaterais dos remédios para próstata.
Por outro lado, existem situações em que o Rezum não é a melhor indicação. Próstatas muito volumosas, acima de 80 gramas, tendem a ter resultados inferiores, embora possam ser tratadas em casos selecionados. A presença de um lobo médio muito grande e obstrutivo também pode limitar a eficácia, ainda que avanços recentes na técnica venham ampliando essa indicação. Uma novidade importante de 2025 é que um consenso internacional passou a reconhecer que o Rezum pode ser considerado tratamento de primeira linha mesmo em homens bem selecionados com lobo médio, desde que a técnica garanta uma ablação completa do tecido.
Como o procedimento é feito
Uma das maiores vantagens do Rezum é a simplicidade logística. O procedimento foi desenhado para ser realizado em caráter ambulatorial, com o paciente sob anestesia local. Na prática, costumo associar uma sedação leve para deixar a experiência mais confortável, sem que isso tire o caráter ambulatorial da intervenção. Não há necessidade de internação, e o paciente vai para casa no mesmo dia.
O acesso é feito por dentro da uretra, com auxílio de um cistoscópio. Uma agulha fina libera as rajadas de vapor de aproximadamente nove segundos cada, direcionadas com precisão às áreas da próstata que precisam ser tratadas. O número de aplicações é calculado conforme o volume da próstata e o comprimento da uretra, seguindo uma regra prática de aproximadamente uma aplicação para cada 10 gramas de próstata.
Ao final, o paciente sai com uma sonda vesical. Esse é um ponto que gera muita dúvida, então vale explicar com calma. O tempo de sonda varia de caso para caso, mas em geral mantemos o cateter por cerca de um dia para cada aplicação realizada. Em outros serviços, esse período pode chegar a alguns dias dependendo do tamanho da próstata. A sonda é necessária porque a próstata incha logo após o tratamento, e esse inchaço temporário pode dificultar a passagem da urina nos primeiros dias.
Rezum no lugar do remédio
Durante muitos anos, o caminho padrão para a próstata aumentada foi começar pelo remédio e só partir para algo mais definitivo quando a medicação falhava. Esse modelo vem sendo questionado, e o Rezum está no centro dessa mudança de pensamento.
A lógica é simples. Os medicamentos mais usados, como os alfabloqueadores e os inibidores da 5-alfa-redutase, aliviam os sintomas mas não tratam a causa de forma definitiva. Eles precisam ser tomados continuamente, têm custo que se acumula ao longo dos anos e carregam efeitos colaterais que vão desde tontura e queda de pressão até disfunção sexual e ejaculação retrógrada. Muitos homens, com razão, não querem essa dependência por décadas.
As evidências científicas mais recentes reforçam esse novo papel do Rezum. Um estudo de 2025 comparou diretamente pacientes tratados com Rezum contra pacientes que usaram medicação, incluindo doxazosina, finasterida e a terapia combinada, usando dados do grande estudo MTOPS. Os resultados mostraram que o Rezum teve melhoras superiores nos escores de sintomas e uma taxa de progressão da doença em cinco anos menor do que os tratamentos farmacológicos. Os autores concluíram que esses dados sustentam o Rezum como uma opção de primeira linha para pacientes com risco de progressão da hiperplasia.
Um dado que ilustra a mudança
Em uma análise de quase mil pacientes, a maioria recebeu o Rezum já como primeira linha de tratamento ou como alternativa direta à medicação, e não apenas depois que os remédios falharam. O paradigma de esperar o remédio falhar antes de agir está mudando.
Na prática do consultório, uma vantagem concreta que observo é que o Rezum permite a interrupção das medicações após aproximadamente dois a três meses do procedimento. Para o homem que está cansado de organizar a vida em torno de uma caixinha de comprimidos diários, isso costuma ser libertador.
O pós-operatório com honestidade
Aqui está a parte que muitos materiais comerciais sobre o Rezum não contam com clareza, e que eu faço questão de explicar para todos os meus pacientes antes do procedimento. O Rezum tem uma característica peculiar na recuperação: os sintomas costumam piorar antes de melhorar.
Isso acontece porque o vapor desencadeia uma resposta inflamatória no tecido prostático. Nos primeiros dias e semanas, a próstata fica inchada, e esse inchaço pode aumentar temporariamente a dificuldade e a frequência para urinar. É absolutamente esperado e não significa que algo deu errado. Em geral, por volta de duas semanas os sintomas começam a se estabilizar, e a inflamação leva de dois a quatro meses para se resolver completamente.
O ponto mais importante de entender
A melhora do Rezum não é imediata. Os primeiros sinais positivos costumam aparecer a partir de três a quatro semanas, e o resultado pleno é atingido entre três e seis meses após o procedimento. Quem espera melhora instantânea fica frustrado. Quem entende esse tempo, fica satisfeito.
É importante ser transparente também sobre os efeitos colaterais temporários. Cerca de um em cada quatro pacientes apresenta alguma piora dos sintomas irritativos no período inicial. Isso pode incluir ardência ao urinar, vontade frequente e, em alguns casos, um desconforto na ponta do pênis especialmente ao final da micção. Pequenos sangramentos na urina ou no sêmen também podem ocorrer e são autolimitados. Tudo isso faz parte do processo normal de cicatrização e tende a desaparecer conforme a inflamação cede.
Para tornar essa fase mais confortável, costumo orientar boa hidratação oral e repouso relativo nos primeiros dias. Prescrevo analgésicos e antibióticos por alguns dias, e para pacientes com maior risco de inflamação intensa ou sintomas exacerbados, considero o uso de anti-inflamatórios para controlar o desconforto. Existe ainda um risco de cerca de 10 por cento de retenção urinária logo após a retirada da sonda, mais comum em próstatas maiores ou com lobo médio aumentado, situação que é facilmente manejada.
Função sexual e ejaculação
Para a maioria dos homens, essa é a pergunta que mais pesa na decisão. E é justamente aqui que o Rezum tem um dos seus maiores trunfos. A preservação da função sexual é uma das principais razões pelas quais ele é escolhido.
A taxa de ejaculação retrógrada após o Rezum é de cerca de 10 por cento, número muito menor do que o observado em pacientes que usam tansulosina, um dos remédios mais prescritos para próstata, e incomparavelmente menor do que nas cirurgias tradicionais de desobstrução, onde a perda da ejaculação anterógrada é a regra. Em relação à função erétil, os estudos não mostram impacto negativo do procedimento. Os dados de cinco anos confirmam que o efeito sobre a função sexual é mínimo e que essa preservação se mantém ao longo do tempo.
O que esperar a longo prazo
Uma preocupação legítima de quem considera um tratamento menos invasivo é a durabilidade. Será que o resultado dura, ou em poucos anos o problema volta? Os dados de acompanhamento de cinco anos são tranquilizadores nesse aspecto.
A taxa de necessidade de um novo tratamento cirúrgico em cinco anos é de apenas 4,4 por cento, e a taxa de reinício de medicação oral no mesmo período fica em torno de 11 por cento. São números que mostram resultados sólidos e duradouros no médio e longo prazo. Vale lembrar que, como em qualquer tratamento da próstata, o adenoma pode voltar a crescer com o passar de muitos anos, mas isso não retira o benefício de anos de qualidade de vida sem depender de medicação diária.
No Brasil, o Rezum chegou no final de 2023 e vem ganhando espaço rapidamente, com mais de setecentos casos já realizados no país. É uma tecnologia consolidada nos Estados Unidos e na Europa, onde é usada há quase uma década, e que agora amplia as opções disponíveis para o homem brasileiro. Vale ressaltar que, no momento, os custos ainda são elevados no Brasil e não há cobertura pelos planos de saúde ou pelo sistema público, o que deve ser considerado na decisão.
Na minha avaliação, o Rezum é uma excelente opção tanto para o homem que quer evitar a medicação contínua quanto para aquele que prioriza preservar a função sexual e busca uma recuperação mais tranquila do que a de uma cirurgia tradicional. O segredo do sucesso está na seleção correta do paciente, na execução cuidadosa da técnica e, principalmente, em alinhar bem as expectativas sobre o tempo de recuperação antes do procedimento.
Cansado de remédio contínuo para a próstata e quer saber se o Rezum é uma opção para o seu caso? Vamos avaliar juntos.
Dr. Rafael Grunewald, Urologista e Cirurgião Especialista
CRM 201112 | RQE 124579